Fast food altera o DNA e pode afetar seus descendentes?

▼ Em resumo:

Fast food não reescreve seu código genético, mas uma alimentação ruim pode influenciar a maneira como alguns genes funcionam por meio de alterações epigenéticas. Estudos indicam que certas marcas relacionadas à alimentação e ao estilo de vida podem influenciar os descendentes, embora a transmissão dessas alterações em humanos ainda esteja sendo estudada.

Na próxima vez que você pedir um hambúrguer, batatas fritas e refrigerante, pense que os efeitos daquela alimentação podem ir muito além das calorias.

Não significa que um lanche ocasional vai alterar seus genes ou prejudicar seus futuros filhos.

O problema é transformar esse tipo de comida em hábito.

Há anos os cientistas estudam uma relação surpreendente entre alimentação, microbioma, sistema imunológico e a maneira como nossos genes funcionam.

E existe uma palavra importante para entender isso: epigenética.

Fast food muda nosso DNA?

Aqui é preciso fazer uma distinção.

Quando ouvimos que alguma coisa “altera o DNA”, podemos imaginar que ela modifica nosso código genético.

Não é exatamente disso que estamos falando.

Pense no DNA como um enorme livro de instruções que recebemos de nossos pais. A alimentação normalmente não reescreve as páginas desse livro.

Mas pode influenciar quais instruções serão utilizadas e com que intensidade.

É isso que a epigenética estuda.

Existem mecanismos químicos capazes de aumentar ou diminuir a atividade de determinados genes sem necessariamente modificar a sequência do DNA.

Um deles é chamado metilação do DNA.

E existem evidências científicas de que a alimentação pode interferir nesse processo.

O que a alimentação tem a ver com nossos genes?

Uma revisão publicada no British Journal of Nutrition analisou 60 estudos de intervenção alimentar realizados em adultos.

Os pesquisadores encontraram evidências de que fatores alimentares podem provocar alterações na metilação do DNA.

Isso não significa que qualquer alimento produzirá uma alteração genética.

Na verdade, os próprios pesquisadores alertam que as evidências ainda são limitadas para muitos componentes da alimentação.

Mas uma coisa fica clara: aquilo que comemos pode participar da regulação da maneira como nossos genes funcionam.

E onde entra o fast food?

Um importante artigo científico publicado no Nutrition Journal analisou os efeitos da chamada dieta ocidental sobre nosso sistema imunológico.

Essa alimentação é caracterizada pelo consumo elevado de açúcar refinado, sal e gorduras saturadas e pela baixa variedade de alimentos.

É justamente o padrão alimentar encontrado em muitas dietas baseadas em fast food e produtos ultraprocessados.

Segundo o estudo, esse padrão alimentar pode afetar o sistema imunológico e o microbioma — o enorme conjunto de microrganismos que vive principalmente em nosso intestino.

E existe mais.

O artigo também discute como alterações epigenéticas relacionadas à alimentação dos pais podem influenciar seus descendentes.

Então posso passar essas alterações aos meus filhos?

Há evidências, principalmente experimentais e observacionais, de que algumas informações epigenéticas relacionadas às condições ambientais e nutricionais dos pais podem influenciar a geração seguinte.

O artigo do Nutrition Journal, por exemplo, discute alterações epigenéticas paternas relacionadas à metilação do DNA e às histonas que podem ser herdadas e interferir no desenvolvimento inicial do sistema imunológico dos filhos.

Os pesquisadores chegam a discutir a possibilidade de determinadas informações epigenéticas alcançarem gerações posteriores.

Mas existe uma enorme diferença entre isso e afirmar:

“Se você comer um hambúrguer hoje, seus netos sofrerão as consequências.”

A ciência não permite fazer essa afirmação.

Estamos falando de padrões alimentares, exposição prolongada e mecanismos biológicos extremamente complexos.

O problema não é aquele hambúrguer.

Esse talvez seja o ponto mais importante.

Comer uma pizza, um hambúrguer ou uma porção de batatas fritas ocasionalmente não significa condenar seu DNA.

O problema é quando alimentos de baixa qualidade nutricional e ultraprocessados passam a representar grande parte da alimentação.

Uma grande revisão publicada no BMJ, envolvendo dados de quase 10 milhões de pessoas, encontrou associação entre maior consumo de alimentos ultraprocessados e diversos problemas de saúde.

Entre elas estão diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares e maior mortalidade.

Isso não significa que todos os alimentos industrializados provoquem essas doenças.

Significa que existe uma associação preocupante quando o consumo de ultraprocessados é elevado e frequente.

Afinal, somos aquilo que comemos?

Aquela velha frase que ouvimos desde crianças talvez tenha mais ciência por trás dela do que imaginávamos.

Os alimentos não servem apenas para matar a fome.

Eles fornecem substâncias que participam do funcionamento das células, alimentam nosso microbioma, interferem no metabolismo e podem influenciar a maneira como determinados genes trabalham.

Por isso, nossos hábitos alimentares podem deixar marcas no organismo.

Algumas desaparecem.

Outras podem durar muito mais tempo.

E algumas talvez possam influenciar a próxima geração.

Isso não significa ter medo de comer um hambúrguer.

Significa compreender algo muito mais importante: quando uma alimentação ruim deixa de ser exceção e vira estilo de vida, suas consequências podem chegar muito mais longe do que imaginamos.

Aplica-se comumente à comida vendida em lojas pertencentes às grandes redes de alimentação, como McDonald’s, Burger King, Pizza Hut, Telepizza, Bob’s, Habib’s, entre outros. O mesmo alimento, que, por vezes, é vendido como refeição ligeira, pode também ser consumido em restaurantes.

Junk Food (“comida lixo”, numa tradução literal do inglês), também coloquialmente, “porcaria” ou “besteira”, é uma expressão pejorativa para “alimentos com alto teor calórico, mas com níveis reduzidos de nutrientes”. Acredita-se que a expressão tenha sido criada por Michael Jacobson, diretor do Center for Science in the Public Interest, em 1972. Desde então, seu uso tornou-se disseminado.

A junk food contém frequentemente altos níveis de gordura saturada, sal ou açúcar e numerosos aditivos alimentares, tais como glutamato monossódico e tartrazina; ao mesmo tempo, é CARENTE de proteínas, vitaminas e fibras dietéticas, entre outros atributos saudáveis.

Popularizou-se entre os fabricantes porque é relativamente barata de produzir, possui prazo de validade prolongado e pode nem mesmo precisar de refrigeração (caso dos salgadinhos industrializados).

Mundialmente, o consumo de junk food tem sido associado à obesidade, doenças coronarianas, diabetes tipo 2, hipertensão e cáries. Há também preocupações quanto ao marketing direcionado para crianças.

Fontes

  1. Nutrition Journal — “Fast food fever: reviewing the impacts of the Western diet on immunity”. É especialmente importante para este artigo porque discute dieta ocidental, microbioma, sistema imunológico e possíveis efeitos epigenéticos transmitidos aos descendentes.
    Nutrition Journal — artigo científico
  2. British Journal of Nutrition — “Effects of dietary interventions on DNA methylation in adult humans”. Revisão sistemática de 60 estudos de intervenção em humanos. Confirma que a dieta pode influenciar a metilação do DNA, embora a evidência varie muito conforme o componente alimentar analisado.
    British Journal of Nutrition — revisão científica
  3. The BMJ — “Ultra-processed food exposure and adverse health outcomes”. Grande revisão de 45 meta-análises, abrangendo 9,88 milhões de participantes, que encontrou associações entre maior exposição a ultraprocessados e vários resultados adversos de saúde.
    The BMJ — revisão sobre ultraprocessados
Mauro Queiroz
Mauro Queiroz
Mauro Queiroz é jornalista, escritor e especialista em comunicação digital, com trajetória profissional iniciada em 1988. Atua nas áreas de jornalismo, estratégia de conteúdo, SEO, AI Search Optimization e reputação digital. É fundador da Global Copy Studio e autor dos livros The End of the Click e The Age of Digital Reputation.

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